Integração entre as políticas de desenvolvimento tecnológico e de comércio exterior são via para acelerar inovação no Brasil

por andre_inohara — publicado 16/08/2012 18h57, última modificação 16/08/2012 18h57
São Paulo – Em seminário da Amcham, representantes do setor público e privado debateram desafios de aumentar a competitividade via inovação tecnológica.
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O ganho de produtividade que o Brasil tanto necessita para oferecer mais produtos e serviços de alto valor agregado nos mercados internacionais viria de forma mais rápida se houvesse uma aproximação maior entre as cadeias de desenvolvimento tecnológico e de comércio exterior. Tanto o setor público como o privado – universidade, governo e empresas – reconhecem que a competitividade brasileira está aquém de seu potencial em boa parte pela falta de uma agenda integrada de fomento à inovação industrial.

No seminário “Inovação e a Competitividade Brasileira”, realizado pela Amcham-São Paulo nesta quinta-feira (16/08), representantes desses setores debateram ações de melhoria e o que pode ser feito para aumentar a produtividade brasileira por meio da inovação.

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 “Temos que melhorar a relação entre as políticas de inovação e de comércio exterior”, disse Pedro Passos, co-presidente do Conselho de Administração da Natura. O governo poderia condicionar um beneficio fiscal para inovação a um compromisso de vender mais produtos no exterior, sugere Passos. “Incentivos são bons e acho isso ótimo, mas qual é a contrapartida que precisamos pedir desses investimentos públicos? Temos que melhorar nosso comércio exterior”, acrescenta ele.

Para Passos, as empresas brasileiras não podem depender apenas do mercado interno para crescer. “Uma penetração maior no comércio internacional é o que nos mantém no jogo, e para estar nele precisamos nos internacionalizar muito mais. A inovação é o que nos põe no jogo do mercado internacional.”

“Somos um país onde não há grandes divergências de diagnóstico [de necessidade de inovação], e hoje temos convergência de pensamento”, disse Gabriel Rico, CEO da Amcham. “O grande desafio é integrar os esforços [de inovação] e os centros de excelência, o que deságua na execução [das medidas de desenvolvimento tecnológico]. É executar tudo isso que nos dá uma pressão de urgência de correr contra o tempo”, afirma o CEO.

Passos defende que há necessidade de um conjunto de ações para avançar no ambiente de inovação. Uma das sugestões é a escolha do INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial) como autoridade única da execução das normas de propriedade intelectual do País.

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 “Às vezes, para fechar um contrato de royalty ou algo que se refira à propriedade intelectual, há mais de um agente avalizador. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), por exemplo, é uma das que regulam contratos de royalty e transferência de tecnologia no segmento de saúde”, exemplifica.

Na história da Natura, a inovação foi fundamental para seu crescimento. Em 2000, o sucesso do lançamento da linha Ekos – artigos de higiene pessoal baseados na flora brasileira – viabilizou o processo de internacionalização da empresa, que até então era tímido. “Hoje, 10% a 12% de nossa receita vêm de fora do Brasil”, disse Passos.

A aposta na biodiversidade brasileira no ano anterior foi a forma de se diferenciar das concorrentes, recorda o executivo. “Achamos que essa poderia ser uma forma de a Natura concorrer com as multinacionais do setor com verbas de pesquisas em volume absoluto maior do que o nosso”, argumenta.

O mediador do debate e professor da USP (Universidade de São Paulo), Jacques Marcovitch, disse que todos os agentes da cadeia de inovação precisam fazer sua parte para acelerar a produção de novas tecnologias que aumentem a competitividade brasileira.

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Diplomacia da inovação

Para incentivar o intercâmbio de tecnologia, o Ministério das Relações Exteriores (MRE) quer promover a diplomacia da inovação, de acordo com Ademar Seabra da Cruz, chefe da Divisão de Ciência e Tecnologia da pasta.

“No Itamaraty, temos uma percepção clara de que o Brasil não tem como inovar de maneira autóctone. A internacionalização da qualidade, da competitividade e a mudança de perfil produtivo envolvem uma interação cada vez mais forte [com o exterior]”, afirma o representante do ministério.

O Itamaraty iniciou conversas com o setor privado para entender profundamente quais são as necessidades de desenvolvimento e os principais entraves de inovação, investimentos e gestão, para buscar ações conjuntas internacionais que solucionem as carências.

“Temos interações de trabalho com diversos países e empresas internacionais. Buscamos uma agenda internacional sobre quais as possibilidades podem ser supridas por meio de negociação global.” O objetivo dessas conversas, segundo Cruz, não é pular etapas de desenvolvimento, mas “economizar tempo na busca pela eficiência”.

CNPq quer fomentar nos jovens a cultura da inovação

No Brasil, a produção científica é mais centrada no mundo acadêmico e não na inovação industrial. Mudar esse perfil é o grande desafio do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), disse Alexandre Garcia, coordenador-geral do Programa de Pesquisa em Ciências Exatas do órgão.

“Talvez não tenhamos prestado suficiente atenção à inovação. Temos dificuldade sistêmica de converter ciência em pesquisa e em inovação”, admite o especialista. O Brasil é o 13º no ranking [mundial] de produção cientifica, mas o 47º em inovação, segundo Silva.

Isso se reflete no quadro de pesquisadores, onde mais de 80% desses profissionais brasileiros estão nas universidades e institutos de pesquisas. Por isso, formar uma geração voltada à produção tecnológica industrial é uma das prioridades do CNPq. Através de um convênio com a Amcham, os estudantes bolsistas do programa Ciência sem Fronteiras terão a oportunidade de fazer estágios em empresas no exterior e conciliar o aprendizado teórico das universidades com a prática nas empresas.

“Queremos fazer com que esses jovens que vão ao exterior tenham contato com empreendedorismo. É importante que eles tenham acesso às empresas e laboratórios e se engajem no ambiente empresarial, e não só no ambiente acadêmico”, afirma.

Para aproximar o mundo acadêmico, o CNPq está reformulando o Currículo Lattes, uma espécie de banco de dados de pesquisadores. “O currículo Lattes ganhou novas abas para enfocar também inovação, ciência e parte social da pesquisa. Esperamos mudar a direção e valorizar a inovação, para que os pesquisadores passem a trabalhar com inovação.”

Necessidade de mais fóruns sobre desenvolvimento tecnológico

As discussões sobre inovação industrial têm que ocorrer com mais frequência no setor privado para que haja maior engajamento, defende Eduardo Wanick, presidente e CEO da DuPont para a América Latina e presidente do conselho da Amcham.

“Quanto mais gente estiver engajada, mais inovação sai. É preciso aumentar o número de parceiros”, observa. Wanick disse que a agenda de prioridades também envolve o governo. “Tornar o processo de patenteamento mais ágil é uma vantagem competitiva ao Brasil. Não é só questão de reduzir a desvantagem, mas de nos colocarmos em primeiro lugar.”

O atraso do Brasil é evidenciado pelas estatísticas. Em 2010, o PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro representava 3% do total mundial, enquanto o volume de registro de patentes era de somente 0,1% em relação à produção mundial total. “Com esse quadro dramaticamente desbalanceado, precisaríamos multiplicar nossa inovação por 30”, constata Wanick.

Na DuPont, o processo de inovação passa por várias etapas, que incluem princípios de sustentabilidade. “Cada ideia recebe pontos pela contribuição à sociedade, ao meio ambiente e à atratividade do negócio. É uma forma pratica de incorporar a sustentabilidade no processo decisório”, afirma.

Falta de profissionais especializados também influi na produção tecnológica industrial

A ausência de políticas de inovação se reflete na formação de profissionais qualificados, disse Guilherme Marco de Lima, vice-presidente da Anpei (Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras).

Lima comparou a formação de engenheiros no Brasil, que representa 10% do montante total de formandos, com os 39% verificados na China. Para o executivo, falta uma estratégia clara de incentivo à capacitação de talentos.

“Países do leste europeu já têm a inovação em sua estratégia de desenvolvimento. Talentos são essenciais, e empresa e universidade têm que se unir para gerá-los.”

Incentivo ao intercâmbio acadêmico

Na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), estimular o conhecimento tecnológico é feito por meio de intercâmbios com instituições estrangeiras e atenção à qualidade de ensino. “Para que a inovação ocorra na universidade, é fundamental que ela tenha professores e pesquisadores qualificados e alunos inseridos na internacionalização”, afirma Fernando Ferreira Costa, reitor da Unicamp.

Em 2003, a universidade criou incentivos à produção científica voltada ao setor privado como a agência de inovação Inova. Além de desafios frequentes de inovação entre os alunos, a Unicamp abriu espaço para um parque cientifico e tecnológico para empresas constituírem laboratórios de pesquisa, onde a produção será em colaboração com professores e alunos.

BNDES estuda linhas de crédito para empreendimentos de risco

O incentivo à inovação passou a fazer parte das prioridades do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) a partir de 2008. O crédito para produção tecnológica pode ser concedido de várias formas: financiamento, participação acionária, financiamento á universidade e financiamentos não reembolsáveis, segundo Helena Tenório Veiga de Almeida, chefe do departamento da Área de Planejamento do Departamento de Avaliação, Inovação e Conhecimento do BNDES.

Helena reconhece as dificuldades de conceder crédito a empreendimentos de risco, mas o banco tem estudado desenvolver linhas específicas que contemplem essa característica. “Esse é o nosso principal desafio: dar financiamento e entender as especificidades da inovação, que tem maior risco e incerteza. Por isso, os instrumentos [de crédito] têm que ser incentivados.”

Falta de pessoal afeta atuação do INPI

A saída que o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) está encontrando para diminuir o seu backlog (estoque de patentes solicitadas e não examinadas) é dar prioridade a alguns processos, disse Julio César Castelo Branco Reis Moreira, diretor de patentes do INPI.

“Com a infraestrutura que temos, conseguimos priorizar algumas linhas (de pedidos de patente). Mas ainda não temos como priorizar de forma geral”, afirma. O INPI tem 200 examinadores para avaliar backlogs que se acumulam a cada ano.

Em 2011, o órgão recebeu 152,735 mil pedidos de marcas,  volume 15% acima dos 129,62 mil de 2010. Na mesma base de comparação, os pedidos de registro de patentes somaram 31,924 mil ante 28,052 mil, uma evolução de 12%.

Sem investimentos em pessoal, principalmente, e equipamento, a agilidade dos pedidos não vai aumentar. “Temos condições de ter porte da Coreia do Sul, de 600 mil patentes depositadas. Mas isso não é fácil nem rápido”, afirma.

Por: André Inohara e Marcel Gugoni

 


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