Itamaraty quer conhecer necessidades de desenvolvimento do setor privado para negociar inovação com EUA

por andre_inohara — publicado 31/07/2012 17h29, última modificação 31/07/2012 17h29
São Paulo – Representante do governo esteve na Amcham para dar continuidade ao diálogo em ciência e tecnologia firmado com os EUA em abril.
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O Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) quer ouvir do setor privado quais são as suas necessidades de desenvolvimento tecnológico para promover o direcionamento das negociações bilaterais sobre inovação industrial com os Estados Unidos.

“Temos que escutar cada vez mais, estar mais presentes na sociedade para recolher demandas do setor produtivo brasileiro em relação à sua estratégia de competitividade e inovação”, disse Ademar Seabra da Cruz Junior, chefe da Divisão de Ciência e Tecnologia do Itamaraty.

Seabra esteve na Amcham-São Paulo nesta terça-feira (31/07), no comitê estratégico de Propriedade Intelectual, para estreitar o diálogo com o empresariado a respeito da formação de uma agenda estratégica de inovação industrial com os Estados Unidos. O diálogo sobre o tema faz parte do acordo de cooperação científica Brasil-EUA oficializado em março em Brasília após dois anos de negociações.

O compromisso prevê o estreitamento da parceria bilateral em ciência e tecnologia e reafirma a importância de criar políticas para inovações e colaboração em temas como estudos dos oceanos, espaço sideral, nanotecnologia e desastres naturais.

“Graças às negociações, temos um grupo de trabalho Brasil-EUA para formatar projetos, políticas e processos em inovação. Seja para investimentos, associações ou joint ventures, vamos trabalhar com o setor privado”, destaca Seabra.

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Grupo de trabalho com setor privado

O Itamaraty quer formar um grupo de trabalho junto com Amcham, CNI (Confederação Nacional da Indústria) e Sistema Senai para estabelecer as prioridades de desenvolvimento do setor privado e montar uma agenda de mudanças.

“Vocês (empresas) são os geradores de inovação, nós somos os intermediários. Para formar essa agenda, precisamos saber concretamente o que influenciaria o aprendizado de inovação com os EUA para replicar e transferir as boas práticas e as experiências bem-sucedidas em território brasileiro”, argumenta Seabra.

Ele reconhece que há vários entraves para se criar inovação industrial no Brasil. Parte deles é de responsabilidade do Estado, envolvendo excessiva burocracia, alta carga tributária e pouca proteção à propriedade intelectual.

Ainda assim, é possível desenvolver setores que empregam tecnologia de última geração. “Apesar de todas as dificuldades que o Estado tem, tivemos resultados notáveis em áreas como supercomputação, aeroespacial e biotecnologia”, comenta o representante do Itamaraty.

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Desenvolvimento de satélites

Nesse diálogo com a iniciativa privada, o Itamaraty quer recolher demandas concretas, gargalos tecnológicos e de investimentos para entender as dificuldades de inovação e direcionar uma pauta de negociações com outros países capazes de suprir as deficiências da indústria brasileira. Como exemplo, Seabra cita o setor aeroespacial, em que o Brasil tem o objetivo declarado de dominar o ciclo de produção de satélites.

“Temos empresas na região de São Carlos (SP) que começaram a produzir câmeras e equipamentos e estão tendo sucesso ao vender para outros mercados.” A chegada de novos conhecimentos pode criar mercados para produtos inovadores, destaca.

Outro exemplo comentado foi o desenvolvimento trazido pela adoção do padrão de TV digital japonês no Brasil. “Houve toda uma negociação tecnológica e capacitação de empresas. Como resultado, surgiram clusters empresariais no sul de Minas, na região de Santa Rita do Sapucaí, ou o Parque Tecnológico Digital de Santa Catarina. Estamos criando ondas de desenvolvimento tecnológico por conta dessa opção de trabalhar com o Japão”, afirma.

Mudança no perfil produtivo

Para Seabra, está na hora de o Brasil mudar seu perfil industrial de vendedor de produtos básicos (commodities) para exportador de bens acabados. “Sofremos um risco acentuado quando não há diversidade de produtos. Cerca de 40% das exportações de soja dependem de um único mercado (China), e 95% das nossas vendas à Espanha (em 2011) são compostas de commodities”.

Segundo dados da Fecomércio, por outro lado, o Brasil compra grande variedade de bens manufaturados da Espanha. “Junto com o setor privado, precisamos criar um novo perfil produtivo”, comenta.

Os esforços que o País tem feito para incentivar a inovação vêm se intensificando, mas ainda são insuficientes. Em alguns setores como biotecnologia, serviços médicos e energias renováveis o Brasil se tornou referência mundial. O objetivo é que mais setores alcancem o mesmo nível de excelência, segundo Seabra.

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