Prepare-se para fazer inovação aberta com quatro dicas de sucesso

publicado 26/02/2019 09h11, última modificação 26/02/2019 15h38
São Paulo – Executivos da Vale, M. Dias Branco e Postmetria compartilham aprendizados
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De todos os erros que sabotam um programa de inovação aberta nas empresas, o mais comum é o de desconfiar do parceiro e esconder informações. Durante muito tempo, a postura dominante foi a de “nós (grandes empresas) contra eles (startups)”. Mas ainda bem que isso está mudando, comemora Alexandre Mosquim, responsável pela inovação aberta e corporativa da Vale.

“Medo é o pior sentimento que uma empresa pode ter em relação ao ecossistema de inovação aberta. Muitas grandes se assustaram e começaram a criar artifícios para fechar as portas. Infelizmente, isso aconteceu. Mas está mudando.” Em um ecossistema de inovação, podem participar empresas de todos os portes, startups, universidades e centros de pesquisa. Quanto maior e mais abrangente, melhor as chances de acessar novas informações.

Mosquim participou do nosso comitê de Inovação em São Paulo no dia 12/2, junto com Fernando Bocchi, diretor de pesquisa e desenvolvimento (P&D) e inovação da M. Dias Branco, e Dirceu Corrêa Jr., CEO e fundador da startup Postmetria.

Ele explica que, nos últimos anos, as startups conseguiram poder para literalmente assustar as grandes devido à rapidez com que colocavam produtos inovadores no mercado. O que provocou uma mudança de mindset. “Antigamente, se pensava que era a grande empresa que abocanhava todo o mercado. Então eram os grandes contra os pequenos”, disse.

Um projeto de inovação aberta tem que favorecer a confiança na troca de informações e a clareza de propósitos. Os palestrantes listam quatro dicas para criar um programa efetivo de inovação aberta.

1) Junte dinossauros e unicórnios

Quando participam do ecossistema de inovação, empresas tradicionais acabam ficando intimidadas com as startups, conta Mosquim. Eles olham para as startups e veem unicórnios com poderes mágicos porque elas pivotam, mudam o modelo de negócios e criam produtos instantaneamente. “E a empresa olha para si como um grande dinossauro, pesado”, continua.

Para dar primeiro passo na inovação, elas têm que dar um esforço gigantesco de energia e de avaliação financeira. Mas elas se esquecem que nasceram pequenas, de um pequeno empreendedor ou de uma iniciativa de empreendedorismo, argumenta. “Elas nasceram com DNA empreendedor e não reconhecem. São, na verdade, ‘unicornossauros’. Elas só precisam entender a forma de encapsular o histórico empreendedor, para traze-lo de volta à tona.”

Uma parceria bem definida é boa para todos, garante Corrêa Jr, da Postmetria. “Fazer inovação aberta utilizando startup é reduzir em muito os custos de inovação interna das grandes empresas. Sendo objetivo, é a forma mais barata e acessível de fazer inovações incrementais e disruptivas.”

A Postmetria foi selecionada no Germinar, programa de inovação aberta da M. Dias Branco. Lá, as startups são convidadas a apresentar projetos piloto para soluções reais da empresa, e os melhores podem se tornar fornecedores ou parceiros. “Buscamos novas oportunidades de interação com clientes e consumidores para dar uma melhor experiência com a marca. E eficiência em processos internos, vendo como fazer as operações de back office funcionar mais rapidamente”, observa Bocchi, da M. Dias Branco.

2) Se prepare antes e construa junto

Mosquim lembra que o processo de inovação aberta tem que ser construído em conjunto na empresa. Assim que chegou à Vale para tocar o processo de inovação, o primeiro departamento que procurou foi o Jurídico.

“Eles ficaram de cabelo em pé achando que eu já havia iniciado o programa. Respondi que não, era a primeira conversa para construir o processo. E eles se tornaram entusiastas, ajudaram a me conectar com os outros departamentos. Porque faz sentido, a empresa não pode assumir 100% de risco. Só chamamos as startups depois de criar essa fundação”, conta.

A dúvida de um participante foi sobre como engajar o departamento Financeiro para a inovação aberta. É preciso montar um projeto com objetivos claros, argumenta Maximiliano Carlomagno, sócio da consultoria Innoscience e presidente do Comitê de Inovação.

“A definição do projeto e expectativa de retorno têm que estar bem alinhadas. É para um novo negócio, uma nova categoria de produto ou melhoria de processo? Qual a nossa demanda por inovação? Se o cara do Financeiro não conseguir entender o risco, não vai ficar predisposto a alocar recurso.”

3) Atraia os melhores parceiros

Se o objetivo do programa de inovação aberta é encontrar as melhores soluções, então é preciso atrair parceiros comprovadamente competentes. Óbvio, não é? Mas, dependendo do formato de parceria, o efeito é o contrário. Tem empresas que querem projeto piloto de melhoria e só pagam se ele funcionar. Só assim contratam a startup como fornecedor.

“Sabe o que acontece com essa postura? A empresa não seleciona os melhores, só as startups que precisam de validação do projeto. As que já atendem clientes grandes não vão participar”, disse. É o caso da Postmetria, que se tornou parceira da M. Dias Branco com um sistema mais apurado para medir o NPS (método que avalia a satisfação do cliente) usando inteligência artificial. Corrêa, da Postmetria, justifica que não é possível fazer um bom projeto sem investimento.

4) Dê feedback, mesmo negativo

Essa é a dica de ouro de Mosquim: dê o feedback negativo para a startup. Foi uma coisa que a Vale fez para explicar às startups não selecionadas os motivos da exclusão, e que serviu para elas buscarem se aperfeiçoar.

Em um demo day, a Vale selecionou sete startups das 21 que chegaram à final. As que não foram selecionadas se reuniram com a liderança. “Fizemos uma sessão de uma hora com elas, onde estavam grandes executivos da Vale. Havia vice-presidentes e também o presidente sentados com as startups para explicar porque a proposta não foi escolhida. Teve startup que saiu de lá falando que não foi escolhida, mas ganhou o melhor presente da vida.”

Ou seja, criar uma relação de respeito e consideração é fundamental para manter o ecossistema de inovação aberta aos participantes, resume Mosquim.

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