Consultor americano ensina como usar teatro e simulações no combate à corrupção

publicado 12/08/2019 13h22, última modificação 13/08/2019 17h59
São Paulo – Timothy Landon dá exemplos práticos de como incentivar comportamentos íntegros nas organizações
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Timothy Landon, CEO da Landon Consulting e professor da Universidade de New York (à esq.), e o moderador Antonio Gesteira, sócio da KPMG (dir.)

As punições para empresas que quebram regras de integridade são severas. É uma realidade dizer que os fins não justificam os meios, motivo pelo qual elas precisam incorporar formas mais éticas de cobrar e entregar valor. Quem defende isso é o consultor americano Timothy Landon, CEO da Landon Consulting e professor da Escola de Direito da Universidade de Nova York.

“Temos que treinar os gestores e superiores imediatos dos colaboradores para que não se foquem somente em prazos e metas a todo custo. Eles têm que entregar resultados, mas de forma condizente com os princípios éticos da empresa”, afirma. O especialista em compliance abriu os debates sobre comportamento ético no nosso 6º Fórum de Compliance, realizado na sexta-feira (9/8) em São Paulo.

“A ética tem que estar sempre presente. Ela é parte integrante dos resultados e metas”, continua Landon. O especialista se concentrou em uma nova abordagem de compliance focada em mudança comportamental e que tem conquistado adeptos entre as empresas americanas.

Use situações práticas para conscientizar

Landon recomenda treinamentos mais próximos da realidade. “Quando você pergunta para as pessoas: subornar é certo? Provavelmente elas vão dizer que não. Mas se as empresas retratarem momentos críticos com esquetes, teatro ou simulação de alguém gritando com eles por causa de prazos apertados de entrega, são situações efetivas”, argumenta.

Isso colocaria as pessoas em condições próximas das reais e daria oportunidade de elas saberem o que realmente fariam naquela situação, continua Landon. “As pessoas não são inerentemente ruins. Elas estão dentro de um processo, são afetadas por vários fatores e por isso tomam decisões erradas. Elas acham que são éticas, querem se ver como pessoas éticas.”

Outra forma de treinar comportamentos é lembra-las de que precisam ser éticas em momentos de crise. Diante de um momento crucial, é importante criar mecanismos de reflexão.

“Tem formas até bem simples de interromper uma ação decisiva. Como, por exemplo, colocar no celular dos colaboradores um ícone do código de ética. Quando eles ligarem o celular, verão o documento. E tem empresas que, quando lidam com contratos confidenciais, pedem para as pessoas fazer três ou quatro tarefas antes de qualquer ação”, exemplifica.

É preciso provocar essas pausas. “As pessoas têm que pausar e refletir. E serem lembradas de qual é a coisa certa a fazer”, finaliza.

Relativização ética

Por mais eficientes e bem montados que sejam os programas de compliance, eles podem não estar sendo capazes de influenciar comportamentos éticos. A mudança comportamental é um componente fundamental dos treinamentos e deve refletir situações reais de conflito onde elas podem ocorrer, como casos de oferta de suborno ou outros dilemas morais.

Landon explica o conceito de ethical fading, que em português foi chamado de relativização ética. Ele usa uma afirmação polêmica, mas comprovada na prática e por pesquisas. De acordo com a teoria, a chance de pessoas boas fazerem coisas ruins é alta quando pressionadas.

Uma meta decisiva a ser cumprida no trabalho ou a repentina necessidade de arcar com pesados custos médicos de um familiar são exemplos limite onde as pessoas ficariam mais propensas a atravessar a linha da conduta ética, explica. Em situações normais, nada fariam nada errado e até reagiriam com indignação a uma abordagem maliciosa.

Da mesma forma, criminosos condenados não acreditam que fizeram algo errado. Ele cita entrevistas com criminosos famosos de colarinho branco, como Bernie Madoff [condenado por um esquema bilionário de pirâmide financeira em Wall Street], para ilustrar a teoria da relativização ética. “Mesmo depois de sentenciados, acham que não fizeram nada de errado. Põem a culpa nos outros e consideram que a pessoa prejudicada mereceu.”

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