Fórum de Compliance: entenda como o setor privado deve agir no combate à corrupção

publicado 05/08/2021 19h08, última modificação 05/08/2021 19h08
Veja como fortalecer o compliance na cultura organizacional, treinamento e comunicação da empresa
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Fórum de Compliance 2021 aborda a responsabilidade do setor privado em combater a corrupção e desenvolver organizações mais transparentes e éticas.

Para atuar no combate à corrupção, o setor privado deve tornar o compliance empresarial um pilar estratégico e estrutural de sua gestão e cultura organizacional. Combater a corrupção também é uma responsabilidade do setor privado. Somente a união entre governo, empresas e sociedade pode levar o Brasil a superar os baixos índices de combate à corrupção e prosseguir com as transformações estruturais necessárias.

O relatório do Índice CCC, mostra que nos últimos 3 anos a capacidade de combater a corrupção no Brasil vem caindo consideravelmente. De acordo com o ranking geral da América Latina, o país caiu do 2º lugar em 2019, para a 6ª posição em 2021, representando a maior queda entre todos os países latino-americanos.

Diante desse cenário, é fundamental que as organizações brasileiras priorizem o trabalho da área de compliance empresarial, desenvolvam uma comunicação assertiva e elaborem planos de treinamento e prevenção, pois, essas são ações-chave para gerar empresas mais eficazes, éticas e transparentes.

Os desafios são evidentes e, para discutir sobre o papel do compliance e da governança corporativa no combate à corrupção no Brasil, realizamos o nosso Fórum de Compliance 2021 e contamos com a participação de Geert Aalbers, Sócio, Control Risks e Pedro Ruske, diretor de Promoção da Integridade da Controladoria-Geral da União, CGU.

Nosso evento também recebeu os seguintes painelistas: Luciano Hoffmann, Country Head of Ethics, Risk and Compliance da Novartis; Ricardo Bocutti, CCO da Ericsson; Ana Paula Carracedo, Chief Compliance, Risk, ESG & Audit Officer da Qualicorp e Patrícia Godoy Oliveira, Director of Ethics and Compliance da Uber.

 

ÍNDICE DE CAPACIDADE DE COMBATE À CORRUPÇÃO

O Índice de Capacidade de Combate à Corrupção é uma iniciativa da Control Risks com a Americas Society/Council of the Americas. Elaborado anualmente com base em dados públicos e questionários respondidos por experts em anticorrupção, o relatório é usado como ferramenta analítica para avaliar a capacidade de detectar, punir e prevenir a corrupção nos países da América Latina. Além disso, ele deve ser usado para promover debates públicos sobre quais políticas e práticas estão funcionando ou falhando.

Segundo o estudo, o combate à corrupção no Brasil caiu 8% em 2021, representando a pior queda entre os 15 países avaliados.

Para Geert Aalbers, sócio da Control Risks, apesar de ser o país com a maior queda em pontuação geral do ranking, o Brasil se mantém nas primeiras posições (6º lugar) e isso significa que, de certa forma, o combate à corrupção no país ainda é resistente. No entanto, a preocupação é o retrocesso, com a queda contínua ano após ano.

 

Acesse aqui: Índice de Capacidade de Combate à Corrupção 2021

 

A RESPONSABILIDADE DO SETOR PRIVADO 

“É muito importante destacar o papel que o setor privado tem no combate à corrupção. A agenda ESG está fazendo com que as empresas ao redor do mundo e no Brasil se comprometam cada vez mais com uma agenda ampla de sustentabilidade. Isso inclui, entre outros, a implementação de melhores práticas de governança, baseadas nos princípios de equidade, transparência, prestação de contas e responsabilidade”, declara Geert Aalbers, sócio da Control Risks

Para ele, o foco na ética, integridade e compliance faz parte desse movimento e ganha um novo impulso com essa onda global de ESG. Aalbers, destaca ainda, 5 abordagens importantes para o compliance empresarial:

1- Risk Assessments: é preciso expandir e mapear riscos políticos regulatórios que sejam ligados ao tema corrupção;

2- Treinamento: é fundamental realizar treinamentos sobre as políticas de compliance, inclusive, as equipes com maior interação com o setor público;

3- Tecnologia para monitoramento: alavancar a tecnologia para monitorar transações e procedimentos;

4- Terceiros: ser diligente na contratação de terceiros, fazer o monitoramento de parceiros e fornecedores;

5- Canal de denúncia: estruturar procedimentos robustos que garantam o sigilo, a credibilidade e não retaliação dos casos relatados.

“Acredito que risk assessment precisa ser constante e não um exercício com data e horário para acontecer”, defende Ricardo Bocutti, CCO da Ericsson

 

TRANSFORMAÇÃO DA CULTURA ORGANIZACIONAL

“A cultura organizacional é uma arma para o programa de compliance”, assegura Pedro Ruske, diretor de Promoção da Integridade da Controladoria-Geral da União.

Cultura organizacional é um conjunto de atributos que compõem a identidade da empresa: crenças, princípios e valores. Construída de forma orgânica, ao longo do tempo, essa cultura deve passar por transformações importantes.

Tais transformações estão diretamente ligadas ao setor de compliance empresarial, área fundamental e estratégica, para desenvolver empresas mais eficazes, transparentes e éticas, capazes de combater o retrocesso ético.

Ricardo Bocutti, CCO da Ericsson, aponta que a integridade é considerada um valor básico, mas, ainda assim, precisa ser trabalhado e comunicado na empresa.

Para estruturar o melhor programa de compliance e integridade, é importante entender quais são, de fato, os problemas da empresa e ter paciência para construir esse plano. “Eu recusei elaborar um plano de compliance rápido de 100 dias. É impossível estruturar um bom programa de compliance em 100 dias., afirma Ana Paula Carracedo, Chief Compliance, Risk, ESG & Audit Officer da Qualicorp. 

 

TREINAMENTO E COMUNICAÇÃO

É possível combater a corrupção e desenvolver empresas éticas com a implementação de treinamento e uma comunicação clara e eficaz. 

Os treinamentos são fundamentais para preparar líderes e gestores para receber e tratar relatos de comportamento antiético, pois é muito comum que os colaboradores reportem os casos primeiro aos gestores diretos.

Deve haver uma preocupação, por parte das organizações, em reforçar a credibilidade dos canais de denúncia através de comunicação recorrente, desenvolvendo o awareness sobre o funcionamento e importância dos canais. Ana Paula Carracedo, CCO da Qualicorp, afirma que "é importante ter consciência de que será preciso falar novamente sobre a importância do canal e comunicar com recorrência”.

Registrar os casos de corrupção e comportamento antiético nos canais de denúncias é primordial para manter registros e históricos estatísticos, que podem ser usados de forma estratégica de prevenção.

O setor de compliance precisa ser uma área multidisciplinar, onde profissionais de formação e skills diferentes são capazes de identificar riscos sob uma diversidade de olhares e aspectos.

“Acredito que esse exercício ajuda os profissionais de compliance a direcionar de alguma forma quais são os riscos para ficar de olho, os que precisam ser atacados e os que estão por perto, mas são menos importantes”, opina Luciano Hoffmann, Country Head of Ethics, Risk and Compliance da Novartis

 

EMPODERAR AS PESSOAS

Para desenvolver empresas eficazes e éticas, é preciso dar autonomia e poder às pessoas para tomarem suas próprias decisões. 

“Compliance não é um problema da área de compliance. Comportamento ético é problema da empresa porque a reputação é o que traz valor para a organização. Porém, essa reputação pode ser abalada em casos de problemas com corrupção e integridade”, afirma Patrícia Godoy Oliveira. Em outras palavras, ser ético e estar em conformidade é um dever de todos os funcionários e da empresa como um todo.

Para empoderar os colaboradores, é preciso deixar de lado a abordagem baseada em regras, e focar em comunicar os princípios e valores da empresa. “Isso faz muita diferença na hora de encorajar os colaboradores a estar sempre em compliance. Tirar as regras e colocar princípios éticos faz eles se sentirem empoderados para tomar as próprias decisões", afirma Luciano Hoffmann, Country Head of Ethics, Risk and Compliance da Novartis.

“O setor privado tem um papel crucial na expansão da cultura de integridade. A relevância do tema vai além da empresa, porque as pessoas absorvem e levam isso para casa, contribuindo para a melhora da sociedade.” Patrícia Godoy Oliveira.

 

EMPRESA PRÓ-ÉTICA

Pedro Ruske, diretor de Promoção da Integridade da Controladoria-Geral da União (CGU), compartilhou as principais ações, projetos e iniciativas de fomento, avaliação e monitoramento de programas de compliance e integridade de instituições privadas.

Uma das principais iniciativas é o Pró-Ética, que busca fomentar a implementação de medidas de integridade pelas empresas e conscientizá-las sobre o seu papel no combate à corrupção no país.

“O papel do setor privado na integridade dessa relação público-privado é fundamental. Estamos diante de um cenário em que todos precisam fazer a sua parte, seja o estado, seja a organização”, declara Pedro Ruske.

A edição 2018/2019 do Pró-Ética teve um aumento considerável do número de empresas que submeteram seu programa de integridade à análise. A divulgação dos relatórios e das boas práticas de compliance é usada para destacar as empresas em conformidade e gerar benchmarking.

Ainda na última edição (2018/2019), foram identificadas 3 falhas principais das empresas:

1- O não mapeamento dos riscos é um ponto que precisa ser aperfeiçoado;

2- A falta de envolvimento da alta administração;

3- A ausência de aplicação das políticas, controles e procedimentos adotados.

Se eu não tenho o apoio da alta administração, eu não tenho elemento de exemplo, não posso pautar o comportamento dos funcionários e não tenho a transformação cultural que é o que as empresas estão buscando,” conclui Pedro Ruske.

 

O PROPÓSITO AMCHAM BRASIL

“O DNA da Amcham é promover o diálogo público-privado, promover as melhores práticas entre as empresas e esperar que através disso cada um de nós possa evoluir no seu caminho por um compliance mais efetivo”, declara Deborah Vieitas, nossa CEO.

Seguiremos promovendo a sensibilização do tema, as conexões transformadoras e o diálogo para avançarmos e tornarmos o ambiente de negócios cada dia melhor no Brasil. 


Veja a íntegra do Fórum de Compliance de 2021 aqui: