Envelhecimento da mão de obra recebe pouca atenção das empresas

publicado 04/11/2013 08h41, última modificação 04/11/2013 08h41
São Paulo – A partir de 2022, envelhecimento populacional sobe e diminui jovens no mercado de trabalho
comite-de-gestao-de-pessoas-3061.html

As empresas não estão olhando com a devida atenção para o fenômeno do amadurecimento da mão de obra nos próximos anos. “Preparar-se para lidar com o envelhecimento dos profissionais será um fator crítico de sucesso”, indica João Lins, sócio de People & Change para o Brasil da consultoria PwC.

No comitê de Gestão de Pessoas da Amcham – São Paulo realizado na terça-feira (29/10), Lins disse que o número de jovens que vai ingressar no mercado de trabalho a partir de 2022 tende a diminuir cada vez mais, acompanhando a mudança do perfil etário da população brasileira.

Assim como na Europa e Estados Unidos, a média de filhos dos casais brasileiros está diminuindo, e isso vai causar impactos futuros tanto para a economia como as empresas. “A média de filhos por casal caiu de 2,2 na década de 1990, para os atuais 1,7. Para efeito de reposição de profissionais na economia, o ideal seriam dois filhos por casal [substituindo os pais no mercado de trabalho]”, argumenta Lins.

Mudança cultural

Com a iminente escassez de jovens no futuro, haverá mais profissionais em idades avançadas com bagagem recheada de experiência e produtividade. Ocorre que o foco atual das empresas é investir na formação de jovens, para que os mesmos assimilem a cultura organizacional desde cedo e usem sua energia para gerar resultados.

De acordo com Lins, muitas empresas relutam em investir em profissionais maduros. “Infelizmente, há uma premissa que não pode ser ignorada, de que o envelhecimento está associado a aspectos negativos”, destaca o executivo.

A perda de vigor físico e reflexos estão entre os fatores negativos dos profissionais maduros, mas isso não afeta a produtividade de forma decisiva, ressalta Lins. É possível realocar os profissionais para setores de atendimento ou coaching, pois eles oferecem boa capacidade de disseminação de valores, predisposição ao debate e conhecimento de mercado.

Para ele, uma mudança cultural em relação ao aproveitamento de profissionais mais experientes vai demorar em acontecer. “Não há evidências científicas de que profissionais maduros são menos produtivos. Mas a percepção de que profissionais mais velhos se tornarão uma alternativa interessante de preenchimento de vagas especializadas não deve acontecer nos próximos cinco ou dez anos”, lamenta o sócio da PwC.

Case BFFC

Nas lojas da rede de fast food Bob’s, é comum ver idosos atendendo clientes. “Eles são mais pacientes no trato pessoal o que, por sua vez, acaba criando afinidade com os clientes”, disse Valéria Ribeiro, gerente de RH da holding BFFC – controladora do Bob´s e de redes como Pizza Hutt, KFC, Yoggi e Doggis.

Desde 2003, o Bob’s mantém o Programa Melhor Idade, que tem como objetivo oferecer oportunidade de emprego e capacitação de pessoas na faixa etária de 45 a 65 anos. “Temos profissionais com mais de 70 anos ativos em nossas redes”, afirma Valéria. Para ela, a integração de idosos na força de trabalho faz parte da política de diversidade do grupo.

Bônus demográfico

O Brasil viverá as vantagens do bônus demográfico – aumento da população economicamente ativa sobre o contingente que não trabalha – até 2022, mas a falta de condições estruturais faz com que o fenômeno seja mal aproveitado, de acordo com a economista do Bradesco Ana Maria Bonomi Barufi.

Os jovens de hoje estão estudando mais e ingressando tardiamente no mercado de trabalho, uma tendência que vai se acentuar no futuro, comenta a economista.

Além disso, o boom econômico dos últimos anos fez com que os trabalhadores ganhassem aumentos acima da inflação que estão sendo mantidos pelas empresas, em um momento em que a economia não apresenta o mesmo vigor do passado.

“O aumento real de salários sem contrapartida de produtividade é um problema que diminui a competitividade da nossa economia”, ressalta Ana Maria.

De acordo com ela, há duas saídas para compensar a falta de produtividade: aumentar a quantidade de trabalhadores qualificados via educação profissional e treinamento, e realocação setorial. “Cobradores de ônibus serão substituídos, caso os ônibus se tornem informatizados, e podem aprender novas profissões”, exemplifica.

registrado em: