Ética na empresa deve ser discutida no planejamento estratégico, diz filósofo

publicado 19/02/2016 13h36, última modificação 19/02/2016 13h36
São Paulo – Jean Bartoli discutiu com executivos de RH o papel da filosofia em suas decisões
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No grego, ethos quer dizer “lar” e ética não se trata exatamente de um código de conduta, como muito propagado, mas de como conviver com pessoas que não se escolhe. Num lar, ninguém escolhe com quem terá os eternos laços familiares. Então o local mais adequado para se desenvolver ética é em casa, diz o filósofo e economista Jean Bartoli. Com irmãos, principalmente, aprende-se a lidar com inveja, suporte mútuo e empatia.

O raciocínio vale para entender como discutir ética no mundo corporativo. “A ética trata de conviver juntos, não é um código. Na empresa, a reflexão ética é uma DR (discussão de relação) que se faz no planejamento estratégico”, afirma Bartoli, que é professor da FIA e FGV e professor convidado da Fundação Dom Cabral. Ele discutiu o papel da filosofia nas decisões de executivos durante o comitê estratégico de Recursos Humanos da Amcham – São Paulo, quinta-feira (18/02).

O filósofo destaca que a relação organizacional se diferencia da amorosa porque esta se dá pelo desejo de estar junto, enquanto a primeira se estabelece por um pacto assumido, que é o projeto empresarial. E é no planejamento estratégico em que se discute esse pacto que faz os profissionais permanecerem na organização.

“Muitas empresas exigem metas inatingíveis e colocam as pessoas em fracasso permanente. Isso é assédio moral ou social”, destaca, citando o caso em que a justiça francesa se voltou contra a France Telecom e suas práticas de gestão, após o suicídio de 36 funcionários, num período de dois anos.

Para Bartoli, esse pacto tem os mesmos problemas que na família, de convivência com gente que você não escolheu. “É preciso ter confiança mútua e reciprocidade, e trabalhar a questão da inveja, suporte mútuo e empatia, o kit relacional do ser humano”, diz. “É com ele que se conseguem viver juntos, criando vínculos e não conexões. Porque estamos todos muito conectados e pouco vinculados”, declara.

Três questões para filosofar

Ética e vínculos são uma das três questões essenciais para pensar, segundo Bartoli. As demais são “o que deveríamos ver e não vemos?” e “lucidez”. O medo impede de enxergar muitos tópicos, responde o convidado. “Não é um problema intelectual ou acadêmico, mas de medo”, pontua.

Disso vem uma atitude fundamental para começar a filosofar, que é pensar: é preciso ter coragem de ter medo. “Então temos que ter coragem de passar por esse medo para começar a pensar, ver o que fazer para que as coisas de que temos medo não aconteçam”, complementa.

O aspecto da lucidez está ligado à metafísica, que vai além do que se pode perceber. É a questão do significado do que se faz. O professor comenta que, quando atuou como headhunter, questionava os profissionais sobre o sentido daquele convite em sua vida e os sapos que jamais engoliria. “Eu não pedia que me falasse a resposta, mas que pensasse nelas”, conta.

Refletir é ter uma atitude existencial diante da vida e deve ser eito sobre todas as dimensões: pessoal, profissional e cidadã. “É inevitável pensarmos, se nós queremos ser humanos. Lembrem que o contrário de ser humano é ser desumano, e não animal. Nossa opção é ser ou não ser humano”, conclui.

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