Fundador da Ri Happy abandonou pediatria para se dedicar exclusivamente à venda de brinquedos

por marcel_gugoni — publicado 28/05/2012 12h32, última modificação 28/05/2012 12h32
São Paulo - Ricardo Sayon diz que negócio começou a dar certo a partir da dedicação dos donos e de mudança na missão da empresa.
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Um acidente de percurso. É assim que o médico pediatra e empresário Ricardo Sayon define a origem da Ri Happy, uma rede de 114 lojas que fatura R$ 800 milhões por ano vendendo brinquedos e prestando “serviço no fornecimento de produtos de lazer, entretenimento e desenvolvimento infantil”. Ele diz que a empresa, fundada em 1988, foi criada para com a intenção de ser uma saída de uso a um imóvel que só causava aborrecimentos.

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Mas “a loja ia mal”, afirma. “Eu e um sócio tentamos uma segunda loja, mas aí o prejuízo dobrou”, lembra Sayon, em entrevista ao site concedida após participar do ‘Encontro de Empreendedores’ que a Amcham-São Paulo realizou na quinta-feira (24/05). A dedicação em tempo integral foi a primeira saída encontrada pelo médico para alavancar a loja. “Passei a palpitar na Ri Happy e meu sócio falou: ‘pare de dar palpite e venha trabalhar!’ Foi então que passei a me dedicar integralmente.”

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A segunda resposta aos problemas foi encontrar o nicho de mercado e promover uma mudança da missão da empresa. De uma loja que imitava os modelos de compra self service, a Ri Happy passou a investir em indicação e orientação especial aos pais sobre os produtos mais indicados a cada fase dos filhos. “Conhecia muito bem nosso heavy buyer (comprador principal), que eram as mães, e nosso consumidor final, que eram as crianças. A partir disso, adaptamos nossa proposta para fugir do modelo comum”, ressalta Sayon.

A lição aprendida por ele é aplicável a todo empreendedor: dedicação em tempo integral e foco no trabalho. “Empreender é uma escolha”, afirma.

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Leia os principais trechos da entrevista com Ricardo Sayon:

Amcham: Quais os primeiros passos para quem quer se tornar um empreendedor?

Ricardo Sayon: Em primeiro lugar, o empreendedor precisa agregar algum valor à atividade que exerce. Ele precisa pensar em um negócio, uma prestação de serviço, uma atividade de comércio e de produção que tenha algum diferencial. O segundo passo é que o negócio tenha a dimensão adequada, isto é, o suporte financeiro, o espaço de tempo para poder se dedicar. E mais: vejo que o empreendedorismo vem de acordo com sua dimensão e sua capacidade. O pequeno, por exemplo, tem todas as vantagens de poder se aprimorar, criar sua identidade e escala, fazer de forma mais adequada, mais apaixonada, mais dedicada e poder acertar mais por conta disso. Ser pequeno não é necessariamente uma desvantagem.

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Amcham: Por que o sr. disse no seminário que a Ri Happy é acidental?

Ricardo Sayon: Porque ela é acidental mesmo. Eu tinha um imóvel que causava problemas e pedi para minha mulher montar uma loja lá. Sugeri a ela vender chupeta, mamadeira, brinquedo – afinal, o que mais um pediatra poderia sugerir? Ela montou a Ri Happy, que era uma brincadeira para fazer o Ricardo feliz, mas ela detestava a loja. O negócio ia mal. Então, e um sócio tentamos uma segunda, mas o prejuízo dobrou. Tentamos escala para uma terceira, uma quarta, mas aí o salário de médico já não conseguia sustentar [todas as despesas]. Quisemos vender, mas ninguém comprou; depois dar, mas ninguém aceitou. Tentamos fechar, mas não tínhamos dinheiro para concluir o processo. Quando passei a palpitar na Ri Happy, meu sócio falou: “pare de dar palpite e venha trabalhar!” Foi então que passei a me dedicar integralmente.

Amcham: Então quer dizer que empreender é abrir mão de outras oportunidades?

Ricardo Sayon: Evidentemente. Sou médico pediatra, dei aula na Universidade de São Paulo (USP), trabalhei na Secretaria da Saúde. Não há empreendedor que tenha dado certo se dedicando apenas duas horas por dia ao seu negócio. Eu, por exemplo, não entendia nada de negócios e de empreendedorismo. Nunca tive sonho de ser empresário. Mas tinha uma vantagem: conhecia muito bem nosso heavy buyer, que eram as mães, e nosso consumidor final, que eram as crianças. Adaptamos a nossa proposta para fugir do modelo comum da loja de brinquedo, e transformamos nossa missão para sermos os melhores prestadores de serviço no fornecimento de produtos de lazer, entretenimento e desenvolvimento infantil. Passamos a dar treinamento e mudamos a ‘cara’ da loja, usando informativos médicos também. Demos uma cara de prestadora de serviço e não de loja de brinquedo. Tematizamos as lojas, criamos o personagem [Solzinho], explicamos aos vendedores da época quais eram os brinquedos ideais para as crianças em cada idade. Aí a Ri Happy começou a dar certo.

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Amcham: O sr. se arrepende de ter que abrir mão da vida de médico?

Ricardo Sayon: Em alguns momentos, sim. Gostava de pediatria, embora tenha me apaixonado pelos brinquedos. A formação quase sempre mantém uma ligação forte. Não fui formado empresário. Fui formado pediatra. A vida me formou empresário. Na vida empresarial, muitas vezes somos obrigados a fazer o que não queremos. Acredito que empreender é uma escolha. Significa renúncia. É uma opção de dedicação, sacrifício, abandono de outras coisas. De uma coisa eu tenho certeza: essas fotografias que vemos de empreendedores em algum momento de lazer ou fazendo o trabalho de forma descompromissada são folclore. Não é verdade. Empreender significa se dedicar.

Amcham: Daqui para a frente, como o sr. vê sua empresa?

Ricardo Sayon: Com alguma preocupação porque ela deixa de ter esse perfil pessoal para alcançar novos patamares. Efetuamos a venda de 85% da Ri Happy para o fundo Carlyle [em 2012]. O objetivo deixa de ser o mesmo [que almejava com meus sócios]. Mas é certo que ela tem uma fundação sólida. Quem é empreendedor, neste estágio, se torna um pouco médico de família da empresa: nosso negócio, hoje, é zelar pela qualidade e longevidade da Ri Happy. Tenho certeza de que ela vai seguir firme e forte.

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