Empresas precisam criar mais produtos que melhorem o bem-estar coletivo, defende especialista em sustentabilidade

por andre_inohara — publicado 12/12/2012 16h54, última modificação 12/12/2012 16h54
São Paulo – No Prêmio ECO 2012, Ricardo Abramovay argumentou que indústrias influentes como a automobilística e a de alimentação poderiam liderar movimento por produtos e serviços mais sustentáveis.
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As companhias deveriam ampliar sua preocupação com a oferta de bens que gerem bem-estar coletivo, e não apenas com a qualidade de vida individual gerada por esses produtos. “A ideia de que todos querem um carro é uma meia verdade”, argumenta o economista Ricardo Abramovay, professor da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em sustentabilidade.

“Todos sabem que, na hora em que tiverem um veículo, ficarão presos no engarrafamento. O que todos querem é mobilidade, e isso não significa necessariamente ter um carro”, sustenta o acadêmico. Abramovay sugere que indústrias influentes, como a automobilística e a de alimentos, aumentem os esforços para dar qualidade de vida à sociedade como um todo.

Abramovay foi um dos convidados de honra do Prêmio ECO, que ocorreu na última terça-feira (11/12) na Amcham-São Paulo, e apontou exemplos bem-sucedidos de empresas que conseguiram atingir o equilíbrio entre produção econômica e respeito aos ecossistemas.

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Veja abaixo a entrevista de Abramovay ao site da Amcham, concedida após a cerimônia:

Amcham: Durante a cerimônia do Prêmio ECO, o sr. disse que as empresas vencedoras conseguiram trazer respeito socioambiental ao modelo de negócios. Qual a melhor forma de equilibrar sustentabilidade e lucro?

Ricardo Abramovay: A ideia, habitualmente difundida nas escolas e manuais de economia, é que os agentes econômicos respondem aos incentivos dados pelos preços. O que a experiência dos prêmios mostra é que os preços continuam importantes, mas eles contêm dois problemas. O primeiro é que coisas muito relevantes não podem ser avaliadas pelo retorno financeiro. O segundo, que as mais importantes iniciativas dependem de ousadia, criatividade, talento e inovação. Tudo isso, mesmo que seja feito com vistas à lucratividade, pressupõe iniciativa e conhecimento cultural que não são determinados exclusivamente pelo sistema de preços.

Amcham: A capacidade de produzir conhecimento, também mencionada em sua apresentação, seria o principal fator de mudanças?

Ricardo Abramovay: Isso é muito importante neste momento porque precisamos com muita urgência de inovações voltadas para reduzir o uso de matérias, energia e recursos bióticos. Elas têm que ser voltadas a oferecer utilidades reais à sociedade, e não para quaisquer bens cujo fim principal é criar emprego e arrecadar impostos.

Amcham: Como a inovação pode acelerar a mudança de mentalidade empresarial rumo ao respeito socioambiental?

Ricardo Abramovay: Ela é a base disso. E o importante no Prêmio ECO é que ele está reconhecendo iniciativas inovadoras. Todas as empresas vitoriosas se apoiam em pesquisa de alta qualidade. A grande novidade da inovação contemporânea é que ela é cada vez menos fechada e patenteada. Ela será aberta, colocada em funcionamento em rede e acolhedora das contribuições sociais.

Amcham: Passando para as empresas, como elas podem contribuir para gerar bem-estar à sociedade?

Ricardo Abramovay: Falando muito concretamente: não podemos mais, por exemplo, ter a indústria automobilística como a grande liderança setorial em nenhum país. Ela capitaneou o crescimento econômico mundial do século XX, mas, até aqui, tem representado uma opção de mobilidade contrária ao bem-estar e à sustentabilidade, na forma do automóvel individual. Hoje, em São Paulo, os automóveis representam 30% do transporte humano e ocupam 70% do espaço. Se invertêssemos a equação, as pessoas que usam transporte coletivo estariam melhores, e não piores. E a ideia de que todos querem um carro é uma meia verdade. Todos sabem que na hora em que tiverem um carro ficarão presos no engarrafamento. O que todos querem é mobilidade, e isso não significa necessariamente ter um carro. De certa forma, podemos dizer o mesmo com relação à indústria alimentar.

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Ricardo Abramovay: Como a indústria alimentar pode contribuir?

Amcham: Ela é obviamente muito importante, mas temos que levar em conta o fato de que temos hoje no mundo 800 milhões de pessoas passando fome, e também 500 milhões de obesos. Então temos que repensar o método de fabricar alimentos e oferecê-los às sociedades porque há cada vez mais obesos. E essas reflexões hoje não são mais puramente acadêmicas, estão dentro das associações empresariais – melhor ainda, nas próprias empresas e seus tomadores de decisão.

Amcham: Uma das reflexões que o sr. propôs é o consumo colaborativo, incentivado pela publicidade. Qual a adesão a esse modelo?

 Ricardo Abramovay: Ela é minoritária porque as oportunidades de ganho decorrentes do uso predatório dos recursos ainda são imensas. Talvez a maior expressão disso seja a economia dos combustíveis fósseis, que são subvencionados no mundo inteiro, inclusive nos países desenvolvidos e Brasil. Essa matriz energética tem subsídios seis vezes maiores do que as fontes renováveis. Pior, não existe nenhum horizonte de redução na oferta de combustíveis fósseis em virtude das novas tecnologias. Elas adiaram o pico de produção do petróleo para não se sabe quando.

Amcham: Quais as iniciativas mais promissoras de consumo colaborativo que o sr. apontaria?

Ricardo Abramovay: Temos uma profusão de iniciativas empresariais. Um relatório recente da organização não governamental WWF, o ‘Green Game Changers’, fala de empresas como a Philips, que oferece serviços de iluminação e não mais lâmpadas, ou locadoras como a Hertz ou a ZipCar, de locação de automóveis. Há a loja de roupas Patagonia, que faz propaganda explícita no sentido de o consumidor, antes de comprar uma roupa nova, verificar se não pode trocar a roupa que tem com um amigo ou amiga, ou mesmo consertá-la. Iniciativas como essa são extremamente importantes pelo exemplo, embora minoritárias.

Amcham: Qual o maior desafio empresarial rumo à sustentabilidade?

Ricardo Abramovay: Vivemos um momento em que a urgência é cada vez maior. Nossos prazos não podem se estender até 2050, por exemplo. Se não conseguirmos uma arquitetura que compatibilize o tamanho do sistema econômico com os limites dos ecossistemas até 2020, as consequências para a vida social serão catastróficas. Temos que acreditar na hipótese de que sociedade civil, governos e empresas vão acelerar as inovações, para que essa compatibilização se torne possível.

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