Todas as pessoas devem combater o racismo, diz professor da FGV

publicado 25/03/2019 09h49, última modificação 26/03/2019 11h39
São Paulo – Para Thiago Amparo, discussão é de todos; empresas precisam “sair da bolha” e buscar a diversidade
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Thiago Amparo, professor da FGV, em Reunião Especial do Comitê de Diversidade de São Paulo

O racismo não é um problema exclusivo dos negros. É mais do que isso. Combater discriminação deveria ser tarefa de todas as pessoas, e é desse ponto de vista que o assunto deve ser discutido, defende Thiago Amparo, professor da FGV de políticas de diversidade e inclusão.

“A gente não pode desumanizar e falar de população negra, de comunidade negra, de forma uniforme. Aliás, odeio quando falam em comunidade negra, como se a gente fosse uma grande escola de samba. Porque não é sobre isso. É sobre pessoas que são 54% da população brasileira com todas as suas peculiaridades”, disse, no nosso comitê de Diversidade e Inclusão em São Paulo, no dia 21/3.

O comitê foi feito no Dia Internacional da Discriminação Racial. Para comemorar a data, lançamos o e-book Diversidade Racial: Como promovê-la e como ela pode contribuir com o seu negócio?, que vai ficar disponível em nossa plataforma Amcham Connect. Ele também estará disponível gratuitamente para o público em geral no nosso site até o dia 22/4.

Quando se debate racismo, Amparo nunca ouviu falar em comunidade branca. “Existe comunidade branca? Não. Porque as pessoas não são grupos indistintos. Elas têm sonhos e aspirações”, argumenta. E a “comunidade branca” tem uma contribuição importante a dar nessa questão, continua Amparo.

Ela pode começar no grupo de WhatsApp da família. “Sabe aquela conversa do final de ano na festa de Natal, que o seu tio chato do WhatsApp fala alguma coisa racista e você fica quieto, para não discutir com ele? Então. Discuta com ele um pouco, que é o seu lugar, e diga: tio, você está sendo um pouco racista. É o lugar do branco nessa luta”, sugere.

Reconfigurando a história americana

Os negros não aparecem com destaque na sociedade, mas não significa que eles não contribuíram. Para ilustrar, Amparo cita a obra do pintor afroamericano Titus Kaphar, que reconfigura a participação dos negros na história dos Estados Unidos. Uma das pinturas, Behind the Myth of Benevolence, é um retrato do terceiro presidente americano, Thomas Jefferson, que se descortina e revela uma mulher negra seminua.

É uma referência à vida pessoal de Jefferson, conta o professor. Filósofo e político, o líder americano inspirou-se nas ideias iluministas para escrever a Declaração da Independência dos Estados Unidos. Mas, ao mesmo tempo em que defendia o fim da escravidão, Jefferson era um aristocrata que mantinha mais de 200 escravos em suas propriedades e teve seis filhos com uma delas, Sally Hemings.

“Kaphar questiona quem são as pessoas por trás de todas as pessoas brancas. Aquelas que permitiram aos brancos chegar a uma condição privilegiada”, disse Amparo.

Saindo da bolha de contratações

Qual o papel das empresas no combate ao racismo? Abrir espaço para a diversidade e “sair da bolha”, disse Amparo. O primeiro passo é procurar pessoas de diversidade. Amparo disse que a FGV terminou um censo sobre os nove maiores escritórios de advocacia do Brasil. Uma das perguntas era sobre como o funcionário ficou sabendo da vaga.

A maioria branca disse que foi por amigos e parentes. Já a maioria negra soube pela internet. Isso significa que as pessoas brancas têm uma bolha de contatos, um networking que funciona, explica Amparo. “Você pode achar uma pessoa muito interessante pelo seu networking. Por outro lado, você tende a contratar alguém que é parecido com você. Então o networking perpetua, muitas vezes, esse tipo de discriminação. Como as empresas têm que fazer? Sair dessa bolha.”

Para promover igualdade, as empresas podem contratar profissionais negros diretamente com agências especializadas. “Tem várias empresas, como o EmpregueAfro, por exemplo”.

Outra iniciativa é promover capacitação profissional. “Se um estagiário negro é bom, mas não fala inglês, por que não dar um curso a ele?”, indaga. É claro que, se ele não aproveitar a oportunidade, pode ser avaliado por um critério de competência. Mas é importante oferecer capacitação, continua.

Líderes negros são referência

Por último, as empresas têm que ter metas claras sobre diversidade. “Tem que explicitamente incluir a questão étnica racial. Não como um adendo, mas colocar abertamente a igualdade”, detalha.

Quanto mais profissionais negros conquistarem posições de liderança, maior serão as referências para outros profissionais. “É fundamental ter lideranças em altos cargos. Para que o estagiário tenha um mentor e pensar que ele pode chegar até ali.”

As empresas têm que estimular o surgimento de executivos negros. “Tem que fomentar mais pessoas para aqueles espaços. É legal para um negro ser case de sucesso, mas ser o único cansa e é deprimente”, disse Amparo.

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