Mudar mentalidade do mercado sobre sustentabilidade requer ação coletiva gigante, diz Eccles

publicado 20/12/2013 11h21, última modificação 20/12/2013 11h21
São Paulo – Em entrevista, professor de Harvard comenta a necessidade de mudança cultural no meio corporativo
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Robert Eccles, professor de Harvard especialista em sustentabilidade, já mostrou que as empresas altamente sustentáveis lucram mais, financeiramente, no longo prazo. Ele falou sobre a pesquisa que chegou a esse resultado durante a entrega do Prêmio Eco, em 09/12, na Amcham – São Paulo (leia mais aqui).

Mas e como mudar a mentalidade das corporações que ainda não enxergam os benefícios da sustentabilidade para seus negócios e para a sociedade? Em entrevista ao site da Amcham, Eccles afirma que é necessário haver um movimento de todos os componentes do mercado, frente a um problema coletivo gigante.

Como leitura adicional, ele recomenda seu artigo The Performance Frontier (leia aqui), em que discute como inovar para uma estratégia sustentável.

Abaixo, acompanhe a conversa com o professor Eccles.

Muitos executivos afirmam que sustentabilidade é custo, não investimento. O sr. encontrou uma resposta diferente, nesse assunto?

Dependendo do ponto de vista, eu penso o mesmo. Sustentabilidade como investimento depende do ponto de vista. Se você vê sustentabilidade como investimento, você realmente precisa de um longo tempo para obter retorno, em toda a operação.

Normalmente há a mentalidade de retorno de investimentos de trimestre a trimestre. Então como mudar essa mentalidade?

Há um artigo chamado Sustainable Capitalism, do Generation Investiment Management, escritório de investimentos de Al Gore, ex-vice-presidente dos EUA, que mostra a dicotomia entre resultados financeiros e sustentabilidade e a necessidade de mostrar a relação entre os dois. O defensor da sustentabilidade nas corporações tem de entender a pressão pelo retorno financeiro, mas precisa olhar a longo prazo. Ele tem a missão de mostrar à companhia que, com a sustentabilidade, terá retornos crescentes com a sociedade civil, que além de apresentar cobranças cada vez mais fortes, também pode virar cliente, amanhã.

É difícil transformar essa mentalidade. Como mudá-la?

É difícil, mas algumas coisas podem ser feitas, evitando cada vez mais os resultados trimestrais, quebrando esse ciclo vicioso, porque isso é uma questão de mentalidade, muito em voga no mercado americano, de que a gente só está aí para mostrar um resultado simplista e temporal. É preciso manter o longo tempo em mente, apesar da pressão natural por resultado financeiro. É necessário haver, também, mudança cultural em regulamentações, como as bolsas vêem esse ponto, e cada vez mais relatórios de sustentabilidade. É um problema de ação coletiva gigante, porque uma companhia não muda o mercado sozinha; é necessário haver a conjunção de forças de muitas companhias, analistas, investidores, ONGs (organizações não-governamentais), autoridades. As ONGs, que têm tendência de serem muito específicas, têm dificuldade de entender que empresas também podem atuar para o bem comum. Elas devem atuar com o sentido de trade off, de que não dá para ganhar 100%, mas que é preciso ceder, em alguns momentos. É algo controverso, mas é legítimo.

As companhias estão preparadas para o fortalecimento da sociedade civil?

As empresas ainda não estão preparadas. Elas estão entendendo agora que a sociedade e os shareholders não se contentam mais apenas com os resultados a curto prazo. As companhias ainda são razoavelmente tradicionais, os diretores de sustentabilidade, às vezes, não têm prioridade nem acesso aos CEOs, mas essa é uma tendência crescente nos EUA. 

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