Eccles: empresas de alta sustentabilidade lucram no longo prazo

publicado 09/12/2013 18h43, última modificação 09/12/2013 18h43
São Paulo – Professor de Harvard veio ao Prêmio Eco e apresentou pesquisa que fez ao longo de quase duas décadas
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Convidado de honra do Prêmio Eco 2013, o professor de Harvard Robert Eccles, depois de acompanhar 180 empresas por 18 anos, mostrou que as empresas que apostam firme em sustentabilidade lucram mais a longo prazo – o que impacta diretamente no perfil dos investidores.

Eccles lembrou que a análise leva em conta diversos parâmetros financeiros, como valor de mercado e patrimônio. No trabalho, que começou em 1992, ele divide o grupo de empresas em dois blocos distintos: alta sustentabilidade e baixa sustentabilidade.

“Selecionamos organizações que já tinham práticas muito antes disso entrar na moda. Hoje, fala-se muito [no assunto], mas nem todo trabalho é sério”, adverte. “À época, os números financeiros dos dois grupos eram semelhantes”, comenta.

A divisão em dois blocos tinha como objetivo examinar o comportamento de ambos, ao longo dos anos. O primeiro achado foi o de que, no primeiro grupo, a compensação dos executivos era mais ligada à sustentabilidade, em vez de apenas no rendimento. Em segundo lugar, havia um forte grau de engajamento com todos os stakeholders (funcionários, investidores, comunidade, imprensa, governo, etc).

A pesquisa incluiu os dados financeiros levantados por uma consultoria para o índice Dow Jones. “E eles mostraram uma diferença significativa”, diz o professor.

Janela do tempo

Eccles acrescenta que as empresas do primeiro grupo se tornaram ainda mais sustentáveis ao longo do tempo, vendo o retorno dos investimentos também em longo prazo.  “O comprometimento com a sustentabilidade precisa de uma longa janela de tempo. As empresas precisam provar para o mercado que são comprometidas”, pontua.

Isso ficou claro quando as integrantes do bloco de alta sustentabilidade focavam mais o desempenho em longo prazo que os próprios resultados financeiros, nessas análises. Esse comportamento impactou diretamente os investidores.

“Elas tiveram oportunidade de formar a base de investidores para o longo prazo, em vez de curto. A vantagem desse posicionamento é que a empresa fornece ao investidor dados para que ele fique por muito tempo”, conclui.

Métricas

As métricas de performance entre os dois tipos de organizações também trouxeram diferenças claras. No grupo de alta sustentabilidade, as empresas coletavam mais informações não financeiras, como as internas, incluindo as provenientes de funcionários e fornecedores.

Essas empresas também eram mais propensas a relatar esses dados de forma integrada, relacionando resultados financeiros e não financeiros e KPI’s (indicadores-chaves de desempenho).

“Esses investimentos com impactos ao longo do tempo também têm impacto sobre as gerações mais novas, que já vêm mais preocupadas com a sustentabilidade”, associa.

O portfólio dessas empresas também mostrou diferença. Em 1992, não havia diferença entre os dois grupos. Mas já no meio da década de 90, a curva referente ao primeiro bloco se descolou numa ascendência que se manteve até 2010.

“É mais um indício de que os investimentos levam tempo para acontecer”, arremata o professor de Harvard.

Características

O estudo deixou claro que as empresas mais sustentáveis apresentam níveis altos de governança, engajamento e transparência, além de suscitar a pergunta “o que é uma corporação sustentável e o que é um programa sustentável?”.

Os programas incluem atividades como cortes na emissão de carbono, redução de resíduos, aumento da eficiência operacional e salários acima do mercado. Mas eles não criam uma estratégia empresarial sustentável, que aborda os interesses de todos os seus stakeholders; aumenta o valor das ações, enquanto melhora o desempenho da governança corporativa, social e ambiental; considera o que é verdadeiramente material para a estratégia da empresa; e é realista sobre compensações entre fatores financeiros e de ESG (environmental, social and corporation governance).

“Os investidores vão conseguir construir um relacionamento sobre essas informações”, destaca.

A conclusão é que, a partir de pontos como esses, é preciso criar um caso de sustentabilidade e comunicá-lo ao mercado. “As empresas precisam mostrar aos investidores que é importante investir nelas”, ressalta.

Sintonia com o Prêmio Eco

No começo de sua apresentação, Robert Eccles brincou que se surpreendeu com tantos enfeites natalinos em meio ao calor, tendo em sua mente a imagem de que o Natal ocorre sob a neve que, nessa época, já cai no hemisfério norte. Sob risos da plateia, ressaltou que o que realmente o impressionou foi a trajetória de três décadas do Prêmio Eco.

“Ele nasceu muito antes da palavra sustentabilidade entrar na moda”, explica.

Ao final de sua apresentação, o professor de Harvard chegou a uma conclusão, a partir das categorias contempladas pela premiação – ELIS (Estratégia, Liderança e Inovação em Sustentabilidade) e Práticas de Sustentabilidade (nas modalidades processos e produtos ou serviços).

“A forma como vocês [da Amcham] pensam em sustentabilidade é quase idêntica ao que nós pensamos [em Harvard], sobre processos, gestão e inovação”, disse. “Isso vai nos levar a grandes inovações. Elas demoram mais e têm risco maior, porque são as primeiras a acontecer, mas por isso mesmo dão mais vantagens competitivas”, finaliza.

Confira vídeo com breve resumo da apresentação do Robert Eccles: 



 

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