Soluções para contornar crise hídrica não trazem tranquilidade, diz especialista

por lays_shiromaru — publicado 09/04/2015 14h00, última modificação 09/04/2015 14h00
São Paulo – Professor de gestão ambiental da USP recomenda alternativas para pessoas e empresas buscarem independência do sistema público de abastecimento
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As medidas apresentadas até agora para contornar a crise hídrica na região metropolitana de São Paulo deveriam ir mais longe, sugere Pedro Côrtes, geólogo e professor de gestão ambiental da USP e da Uninove. “O sistema do jeito que está hoje e as soluções que estão sendo propostas não dão tranquilidade para os próximos anos”, revelou em palestra ao comitê estratégico de Sustentabilidade da Amcham-São Paulo, em 08/04. Confira abaixo entrevista com o especialista.

Amcham: A crise hídrica era previsível?

Pedro Côrtes: Sim, essa crise era previsível em vários aspectos. O sistema (de captação, tratamento e distribuição) já vinha operando no limite nos últimos dez anos e tínhamos informações climáticas que sinalizavam a possibilidade de ocorrência desses períodos de estiagem. Somando essas duas situações, isso já mostrava uma tendência forte de colapso.

A: Como deverá ser a recuperação?

P.C.: Se continuar do jeito que está atualmente, a recuperação deve começar a ocorrer de maneira mais lenta dentro de seis anos. Serão seis anos em que teremos que utilizar o volume morto e, paulatinamente, começaremos a sair dele para ter uma situação um pouco mais confortável, comparada com a atual. A recuperação é lenta, porque o volume do sistema Cantareira abaixou muito. Essas oscilações aconteciam num nível bem mais alto. Como o nível reduziu, vamos usar o volume morto com mais frequência até que tenhamos uma recuperação um pouco melhor do sistema. Isso dentro de um cenário atual: se o consumo e as soluções apresentadas continuarem os mesmos. Se o governo tiver uma intervenção mais significativa, será possível dar uma folga para o sistema e essa recuperação pode ser mais rápida.

A: Qual sua opinião sobre a campanha para economia de água que vem sendo feita?

P.C: A população deveria ter sido alertada há muito tempo de que a nossa disponibilidade hídrica é muito baixa. Isso pegou as pessoas de surpresa, elas não tinham nenhuma informação nesse sentido. Mesmo durante a crise, a comunicação do governo tem sido muito tímida. Eles pedem para economizar água fechando a torneira enquanto se escova os dentes ou faz a barba, mas a população já foi muito além. As pessoas estão buscando captação da água de chuva, água de reuso. As empresas também estão buscando essas soluções. Vejo uma atuação muito fraca do governo no sentido de mostrar quais são as alternativas que as pessoas têm para não ficarem tão dependentes do sistema público de abastecimento.

A: Quais alternativas pessoas e empresas também deveriam adotar para economia de água?

P.C: O consumidor doméstico deve reduzir o consumo, verificar onde está gastando mais para tentar otimizar os processos em casa. Na medida do possível, utilizar água de chuva e promover o reuso do recurso. Essas soluções também valem para as empresas. Muitas vezes as companhias podem dispor de soluções de até melhor qualidade, como captar a água da chuva, por exemplo, e dar um tipo de tratamento que possibilite um uso melhor dessa água. Para uso doméstico, recomendo que se utilize água da chuva onde ela normalmente poderia passar sem problemas, como para lavar piso e regar jardim, por exemplo. Uma empresa pode dispor de um tratamento que possibilite outro uso para essa água, buscar redução de consumo e reutilização dessa água. Considero promissor tudo que leva à independência do sistema público de abastecimento. O sistema do jeito que está hoje e as soluções que estão sendo propostas não dão tranquilidade para os próximos anos.

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